18/08/10

Altar do Espírito Santo na Matriz de Ovar (hoje do Imaculado Coração de Maria)

Iconografia do retábulo que se encontra do lado esquerdo do transepto da Igreja Matriz de Ovar, em simetria com o de Nossa Senhora do Rosário (à direita).


No vértice, a imagem da Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo.
O Pai é representado por uma figura masculina, possante, em pedra (dos séculos XV-XVI?), e o Filho por Jesus Cristo pregado numa cruz (peça actual, vulgar, em madeira, a substituir a anterior, em pedra, que se deve ter quebrado e perdido). Falta o Espírito Santo, que deveria ser figurado por uma pequena pomba em pedra, no topo da primitiva cruz.


No basamento, junto ao altar, há cinco baixos-relevos alusivos à presença da Trindade em outras tantas passagens bíblicas.

Abraão dando hospedagem a três anjos

As personagens sugerem o próprio Deus (Trindade). Em troca, o Senhor promete-lhe que, dentro de um ano, Sara, sua esposa, terá o filho que desejavam (Isaque).

Anunciação a Maria

Maria responde o seu sim ao Anjo Gabriel, aceitando tornar-se a Mãe de Jesus, Filho de Deus, por acção do Espírito Santo (simbolizado numa pomba rodeada por dois anjos). Na mão esquerda, o Anjo Gabriel sustenta um bordão a significar a sua missão de enviado de Deus.

Baptismo de Jesus no Jordão por João Baptista

Uma pomba, símbolo do Espírito Santo, paira sobre a cabeça de Jesus, que vai ser limpo por um anjo. O Evangelho refere que se ouviu a voz do Pai, vinda do Céu: “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”. João tem na mão esquerda um bordão semelhante à haste (com a serpe) levantada no Deserto por Moisés para curar as mordeduras das serpentes venenosas.

Transfiguração de Jesus

Jesus, ladeado por Moisés e Elias, sob uma nuvem que os envolveu no Monte Tabor. Os três discípulos Pedro, Tiago e João, que estavam presentes, ouviram a mesma voz: “Este é o meu Filho muito amado (…); escutai-o”. No Inventário Artístico de Portugal - Aveiro Norte, o Padre A. Nogueira Gonçalves interpreta este quadro como sendo os Discípulos de Emaús, baseando-se, por certo, no facto de Jesus ter na mão o ceptro da vitória sobre a morte, e de não estar revestido das vestes brancas, como relata o Evangelho da Transfiguração.
Eis um bom tema para debate entre os peritos.

Ressurreição de Jesus
Figura de Cristo Ressuscitado, com a bandeira da vitória sobre a morte

No centro do altar encontra-se hoje a imagem do Imaculado Coração de Maria (a 1.ª imagem, com este título, esculpida segundo as informações da vidente Lúcia acerca da visão que teve em Tui (Espanha). Foi seu autor José Ferreira Thedim, em 1947. Esta imagem substituiu a do antigo Coração de Maria (actualmente na Capela do Furadouro), a qual, por sua vez, tinha destronado a de Nossa Senhora do Pilar (agora na Casa-Museu da Ordem Terceira).
Nos dois nichos laterais situam-se as imagens de S. Judas Tadeu (1966) e de Santa Luzia (séc. XVIII).



O título primitivo deste altar que, para além das diversas referências à Santíssima Trindade, tem no vértice a sua imagem (que a tradição confunde com o Espírito Santo), deve estar relacionado com o culto medieval ao Divino (Espírito Santo), ainda hoje bem vivo em muitas terras de Portugal, particularmente nos Açores. Em 1758, segundo as “Informações Paroquiais”, este altar era dedicado a Nossa Senhora do Pilar e às Almas.
Pela forte ligação deste altar ao culto do Espírito Santo e às Almas, cremos que aqui teve a sua sede uma rudimentar Misericórdia, com regalias para os pobres como indicia a existência de uma “Barca da Misericórdia” operando na Ria de Ovar/Aveiro).
Em 1758, o Pároco afirma não haver em Ovar Misericórdia ou Hospital. Mas, pouco depois, sob a iniciativa do Pároco Monterroso, a vila abalançou-se à construção do primeiro Hospital. (Só um século depois, em 1910, sob a égide do Dr. Francisco Zagalo, foram lançadas as bases da actual Misericórdia, segundo o modelo das clássicas instituições fundadas por D. Leonor de Lencastre.

Sobre o antigo culto do Espírito Santo, ver "A Igreja do Espírito Santo, de Alenquer".

Texto: P.e Bastos - Fotos: Fernando Pinto

1 comentário:

Fernando José Teixeira disse...

Em meu entender, o quarto relevo do basamento do altar representa, de facto, o episódio da Transfiguração de Cristo no Monte Tabor. Com efeito, se repararmos bem, as cinco cenas representadas estão ordenadas por ordem cronológica: Abraão, Anunciação da Virgem, o Baptismo de Cristo, a cena em discussão e a Ressureição de Cristo. Se a cena em causa representasse o encontro de Emaús, deveria ser colocada depois da cena da Ressurreição, porque ocorreu depois dela. Se de facto representa a Transfiguração, está no lugar certo, entre o Baptismo de Cristo e a Ressurreição. Outras razões há em suporte desta opinião que, por brevidade, omito.