18/12/11

Natal sem...

Por António Poças

Presépio na rotunda de S. Cristóvão (Ovar)
Seria curioso fazer um inquérito acerca do Natal: indagar o que é e o que significa. Estas seriam as perguntas fundamentais, ladeadas por outras de menor importância.
Obter-se-iam respostas que poderiam dividir os entrevistados em duas classes distintas: uma, porventura a maioria, revelaria uma mentalidade social/consumista, induzida pelo comércio e pelos “fetiches” que se foram fabricando, que pouco ou nada têm a ver com o sentido natalício; outra, em franca decadência, patentearia uma interiorização autenticada por testemunhos concretos de compromisso solidário/comunitário.
Talvez para uns e para outros haja um ponto de contacto, um denominador comum: continua a ser peça fundamental dos adereços natalícios a inclusão do presépio, exibindo um menino seminu e mais algumas figuras estereotipadas que lhe fazem guarda de honra, como se o frágil menino, filho de uma família humilde da incógnita e insignificante Belém de Judá, tivesse direito a guarda de honra. Trinta e três anos depois, ironizar-se-á, uma vez mais, acerca das origens de Jesus de Nazaré…
Para muitos (e são cada vez mais), a ideia de Natal não se concebe sem as luzes, os pirilampos, mais ou menos mágicos, que provocam em nós intermitências por vezes desnorteantes. Este é o natal (com letra minúscula) dos burgueses do comércio, a que se juntam muitos religiosos pouco praticantes mas fundamentalistas quanto baste.
Ainda resiste um sentimento positivo que a todos encanta e congrega, e isso não pode deixar de se salientar: o espírito de família, a confraternização…, a que a saudade tão portuguesa acrescenta mais-valias descortinadas no fundo da alma.
Gosto de pensar no “Natal sem…”. Penso nisso quando recuo aos tempos, que se perdem na memória, em que na minha casa pobre nos contentávamos com pouco. Algumas iguarias cozinhadas com o calor do amor e a inventividade de um carinho inesgotável de mãe, operavam milagres que hoje nem com um “menino” importado ou feito por encomenda acontecem. 
Penso no frio dos sem-abrigo; nos pais das crianças cancerosas que ainda não viram a vida de frente e já se despedem do mundo que os rejeita, como também rejeitou o Menino que nasceu em Belém. Penso nos que são mortos todos os dias porque não podem adorar Deus ao seu jeito. Penso nos desempregados e nos excluídos de toda a ordem, que jazem, semidespidos, nas lajes frias do presépio da vida que os marginaliza. Penso nos que nem tempo têm de olhar para o calendário e que, quando olham o dia de Natal já era, porque estavam a socorrer e a dar vida a outros que deles precisavam. Penso nesses tantos, pelo mundo fora – os do “Natal sem…”. Penso no Rui Pedro, no filho do Carlos Martins (aquele futebolista que clama aos céus que lhe conserve o filho). Penso, penso…que no “Natal sem…” está escondido o Menino, porque muitos o querem raptar ou matar.
É preciso escutar os gritos, os choros, os silêncios abafados na garganta dos que já não têm lágrimas ou força para chorar nem mais reserva de entendimento para compreender.
Pergunta-te a ti mesmo: o que é o Natal?
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Na sua humildade, o Presépio convida-nos a um estilo de vida simples e frugal, de harmonia com a época de crise em que vivemos.

Presépio no Hospital de Ovar (2011)

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