18/06/14

Projeto “Mãos Solidárias” da Paróquia de Ovar


Portugal está a passar por uma grave crise. Muitas famílias da clas­se média viram-se privadas, de um dia para o outro, da vida desafogada que levavam. Sem trabalho e sem força anímica para voltarem a pe­gar numa enxada, vão escondendo a miséria como podem. Muitas des­sas pessoas têm vergonha de pedir um prato de comida. Mas essa rea­lidade, pelo menos no Concelho de Ovar, está a mudar.

“Num encontro que fizemos há alguns anos, na Junta de Freguesia, proporcionado pelo nosso saudoso colaborador António Mendes Pinto, sobre o trabalho e a pobreza, na mi­nha intervenção disse que a Paróquia estava disposta a ajudar as pessoas mais carenciadas, as que não tinham dinheiro nem para comer uma sopa. Um jornal, na altura, aproveitou a oportunidade para dar a conhecer essa iniciativa. E o projeto arrancou”, disse o Pároco de Ovar, Padre Manuel Pires Bastos, em entrevista ao jornal “João Semana”.
O projeto “Mãos Solidárias” saiu para a rua no dia 14 de setembro de 2009: “Foi aqui em frente, no Salão Pa­roquial, na Avenida do Bom Reitor, que servimos as primei­ras refeições”, lembrou o Padre Bastos.“Na altura, fui ter com as senhoras que distribuíam roupas aos mais pobres e pus­-lhes o problema, se elas queriam ajudar num tra­balho desses. E logo a D. Delfina Carmen acolheu a ideia com entusiasmo, bem como as outras pes­soas que pertenciam a esse setor. A D. Delfina foi falar com os toxicode­pendentes que estavam a arrumar carros na praça. Muito desconfiados, lá vieram”, acrescentou.

Projeto "Mãos Solidárias", da Paróquia de Ovar

O número de utentes foi au­mentando e, à medida que os arru­madores de carros iam ganhando confiança na mensagem que lhes era transmitida, o trabalho realizado pe­las senhoras que abraçaram este pro­jeto social foi dando frutos. “Começou com um grupinho. Depois já eram 20. A D. Fernanda, como era esposa do Sr. Coelho, que tinha uma fábrica de arroz, con­seguia trazer bastante quantidade desse produto. Quando a D. Delfina e a D. Fernanda podiam, compra­vam outros produtos alimentares, conseguindo oferecer uma refeição condigna”, disse o Padre Bastos.

Nas instalações das “Mãos Soli­dárias”
Segundo o Sr. Abade, as condi­ções melhoraram muito quando o serviço das “Mãos Solidárias” passou para as instalações onde funcionou o infantário da Paróquia, onde nos en­contramos.
“Quando viemos para esta casa, por ter fechado o Alvorada, eram à volta de 30 os utentes. Hoje são várias dezenas. Servimos milhares de pratos por ano neste refeitório. Em certos meses chegamos a servir perto de duas mil refeições”, adiantou.
Para o responsável máximo da Pa­róquia, nada disto seria possível sem a ajuda preciosa de algumas grandes superfícies, que diariamente oferecem bens ali­mentares. Todos os produtos que são consumidos, segundo os responsáveis deste projeto, encontram-se em bom estado de conservação.

Na cozinha e no refeitório
“Quando a D. Delfina e a D. Fer­nanda deixaram de colaborar neste trabalho voluntário, por motivos pes­soais, foi a D. Luísa Cruz que assumiu a direção deste nosso projeto. As co­zinheiras que trabalham nas Mãos Solidárias, todas em regime de vo­luntariado, têm feito ao longo destes anos um excelente trabalho, que é de louvar”, sublinhou o Padre Bastos.


“Estou a comer esta sopinha. Está muito boa”, disse, satisfeito, um dos utentes, enquanto punha mais um pedaço de pão dentro do caldo.
“Hoje foi sopa, amanhã será um prato de carne ou peixe”, explicou a D. Laura, a cozinheira responsável pela recolha dos alimentos. “Alterna­mos os pratos de sopa e de comida, durante a semana”, afirmou.
(...) “Eu vinha aqui comer todos os dias. Hoje, ajudo aqui na cozinha”, disse uma das voluntárias do projeto.
“Por falar nisso... Nós estamos a precisar, com urgência, de uma voluntária. Mas queríamos que fos­se uma pessoa assídua, que viesse trabalhar todas as manhãs. Já ago­ra: se alguém quiser oferecer-nos um fogão, porque o nosso já está a precisar de ser trocado, também agradecíamos”, pediram as volun­tárias, enquanto conversavam com o Sr. Abade. [O Sr. Acácio Coelho, empresário de Cortegaça, ao ler este artigo no jornal "João Semana", ofereceu o fogão industrial. A Paróquia agradece a oferta].

Técnicos especializados
O projeto “Mãos Solidárias” conta com o apoio de alguns técni­cos especializados na área da Assis­tência Social, Psicologia e Enferma­gem. “A D. Delfina tinha sempre o cuidado de arranjar alguém que tratasse dessas pessoas. Uma delas é a Sandra, que é Assistente Social, e que tem feito um trabalho muito bom. Está desempregada e gostaria de trabalhar no setor de que é profis­sional”, referiu o Pároco.

Cultivando a terra, no projeto "Mãos Solidárias"
Horta biológica
Há tempos a Paróquia de Ovar colocou à disposição dos utentes das “Mãos Solidárias” o terreno que fica contíguo ao Parque Urbano e o quintal da residência paroquial. Nos primei­ros dias apareceram alguns voluntá­rios que plantaram batatas e couves (na foto), mas poucos continuaram a aparecer para tratar da horta. “Se hou­ver alguém que saiba cultivar a terra e consiga pôr mais gente a trabalhar, seria bom que dessem esse contribu­to”, apelou o Sr. Abade.[Clique AQUI para ler o texto sobre as hortas comunitárias da Paróquia de Ovar]

Banho e roupa lavada
“Comprámos esta casa, aqui ao lado, e mudámos para lá as roupas usadas que nos trazem e que são distribuídas às terças-feiras, a partir das 15 horas. Construímos dois pequenos balneários para que os utentes pos­sam usar para a sua higiene pessoal. Temos também uma máquina de lavar roupa para utilização própria, com muda de roupa sempre aos dispor”, adiantou o Padre Pires Bastos, lem­brando que nesta casa existe também um terreno onde foram cultivados al­guns produtos hortícolas. (...)

Extratos de um texto da autoria do jornalista Fernando Pinto, publicado no jornal "JOÃO SEMANA" - FOTOS: P.e Manuel Pires Bastos

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