16/06/16

Imaculado Coração de Maria – Fátima, Porto e Ovar


Na edição do semanário “Voz Portucalense” de 15 de junho de 2016 foi publicado o seguinte texto do Diretor do jornal “João Semana”, P.e Manuel Pires Bastos.


A primeira imagem do Imaculado Coração de Maria 
 Porto foi o berço, Ovar é o altar

Tendo a “Voz Portucalense” de 25 de maio último transcrito do “João Semana” de 15 de maio um texto em que se afirma que Ovar se orgulha “por possuir na sua Igreja Matriz, desde 12/07/1946, a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria revelada aos pastorinhos de Fátima”, entendemos compartilhar com os leitores alguns elementos complementares e probatórios desta informação, desconhecida da generalidade dos portugueses.

Imaculado Coração de Maria, 
na Igreja Matriz de Ovar, desde 1946
FOTO: Fernando Pinto

Achamos oportuno fazê-lo não só por estarmos a preparar o primeiro centenário das Aparições e por ter ocorrido há pouco a festa litúrgica do Imaculado Coração de Maria, mas ainda por essa imagem ter sido esculpida na diocese portucalense, de onde nunca se ausentou.
Trata-se de uma imagem singular, “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima” (“João Semana”, 25/07/1946). Adquirida na Casa França, do Porto[1], por um generoso ovarense, Dr. Salviano Pereira da Cunha e Costa, esta imagem foi recebida solenemente na Igreja Paroquial de Ovar em 12 de julho de 1946, passando, com licença do bispo do Porto, a presidir ao altar antes ocupado por uma antiga imagem do Coração de Maria[2].

História de uma Imagem única
Após um retiro em Fátima, em setembro de 1942, as Religiosas do Sagrado Coração de Maria idealizaram representar Nossa Senhora no momento em que mostrou aos pastorinhos, nas aparições de 13 de junho e 13 de julho de 1917, o Seu Imaculado Coração.
A ideia foi ganhando forma a partir de sucessivos ensaios e esboços, em que interveio, com achegas e correções, a Irmã Lúcia, então a residir em Espanha. A última alteração, feita pelo próprio punho, chegou em carta de 10/10/1943, acompanhada pelo seguinte texto:
“A mão direita mais à altura do hombro como que refletindo, ao mesmo tempo para os assistentes. Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O coração com os espinhos à volta. Nem o coração, nem as mãos nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo. Não tinha cordão, nem facha, mas formava sinto, com algum franzido no sinto e pescoço”.

Fig. 1 - Desenho do Imaculado Coração de Maria, com correções (do manto, das mãos, do coração), 
feitas a lápis pela Irmã Lúcia (1943), respeitadas na 1.ª versão da escultura da Casa França (na fig. 2)
Fig. 2 - A 1.ª imagem do Imaculado Coração de Maria esculturada entre 1945/46 pela Casa França,
que seguiu com rigor as indicações da Irmã Lúcia, e que se encontra, desde 1946, na Igreja Matriz de Ovar

A representação em estampa
Feito novo estudo, foi este aprovado ainda em dezembro de 1943 pelos senhores Cardeal Patriarca e Bispo de Leiria, e logo em abril de 1944 “aparecia, finalmente, a edição definitiva da representação do Coração Imaculado de Maria, tal como se tinha manifestado aos videntes de Fátima em 13 de Junho de 1917”[3].
Em abril de 1944, a Madre Chantal chamou a Lisboa o escultor José Ferreira Thedim, com a intenção de o convidar a executar a imagem. Por razões que aduziu, mas que desconhecemos, foi-lhe impossível aceitar o honroso convite, deixando a Irmã em situação embaraçosa, tanto mais que tinha como meta dotar os seus colégios com uma imagem devocional da patrona da Congregação[4].

Imagem… “desaparecida”?
Embora nos tenhamos empenhado na procura de dados documentais sobre os factos sequentes a essa recusa não os encontrámos, tal como não no-los deixaram os estudiosos de Fátima.
O próprio Reitor do Santuário, Monsenhor Antunes Borges, no seu estudo “Como surgiu a primeira Imagem do Imaculado Coração de Maria”, escreveu em 1969, a propósito da ida de Thedim a Lisboa: “Ali recebeu todas as informações necessárias para aparecer a primeira imagem do Coração Imaculado de Maria em conformidade com os dados fornecidos pela vidente Lúcia de Jesus. Era muito justo que assim se procedesse, tanto mais que, nesta representação, deveriam aparecer as mesmas feições da Senhora da Capelinha das Aparições. Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem, que devia servir de modelo para todas as outras[5]”.

Pormenor da imagem do Imaculado Coração de Maria, 
na Igreja Matriz de Ovar, desde 1946

FOTO: Fernando Pinto

O título dado por Antunes Borges ao seu estudo leva a concluir que, pressupondo-se que já não existe “aquela primeira imagem” (a de 1946), outra (a de 1949) tomará o seu lugar pioneiro. Esta conclusão tirou-a a própria Irmã Lúcia, que, regressando ao Porto em 16 de maio de 1946, nunca pensou que a imagem em que colaborou, e que se julgava perdida, estava, afinal, bem viva, prestes a partir, dois meses depois, humilde e submissa, para a Paróquia de Ovar. Por isso haveria de afirmar, em carta dirigida a D. Maria Teresa Pereira da Cunha, em 11 de agosto de 1949: “A imagem do Coração Imaculado de Maria, não consegui que se fizesse senão após a minha vinda para o Carmelo” (1948).
No livro “Um caminho sob o olhar de Maria”, editado pelo Carmelo de Santa Teresa de Coimbra em 2013, o assunto é assim referido:
“Há muito que a Irmã Lúcia desejava que se fizesse uma imagem representando Nossa Senhora na posição tomada quando mostrou o Seu coração Imaculado. Tinha feito diligências e deu indicações, por duas vezes vestiu uma menina representando esta aparição, para ser fotografada e servir de modelo, mas nunca acontecia. Quando se tratou da Peregrinação Mundial, era seu desejo que a imagem fosse a do Imaculado Coração de Maria. Mas não foi. Até que tudo se resolveu” [6].
Só que este tudo se resolveu refere-se não à primeira imagem, de 1946, saída da Casa França para Ovar, para a qual “deu indicações” mas, sim, à que, quase três anos depois, em 25 de março de 1949, saída das mãos de José Ferreira Thedim, entrou no Carmelo de Coimbra, sendo benzida pelo Sr. Bispo de Coimbra[7].

O real e o tradicional
Uma palavra final: compreendemos o desconhecimento dos investigadores de Fátima em relação à primeira imagem do Imaculado Coração de Maria de Ovar (1946), em que tanto se empenharam as religiosas do Sagrado Coração de Maria e a própria Vidente Lúcia das Dores, imagem que, face às circunstâncias extraordinárias vividas no Santuário, em vésperas do Tricentenário da Padroeira de Portugal, Nossa Senhora da Conceição, foi subalternizada em favor de outras imagens, mormente a
Imagem Peregrina (1947), cuja execução foi assumida por José Ferreira Thedim, e à imagem do Carmelo de Coimbra (1949), também do mesmo artista, e que tem sido referida como a primeira do Imaculado Coração de Maria a ser confecionada.

Na base da imagem do Imaculado Coração de Maria, de Ovar, 
consta a assinatura da Casa França: "França, Esculp Porto - 1946"
FOTO: Fernando Pinto

Irmã Lúcia, junto à imagem que José
Ferreira Thedim esculpiu em 1949,
e que se encontra no Carmelo de
Coimbra
Estranhamos o secretismo que acompanhou a entrega e a execução desta obra à Casa França, bem como ignoramos a data em que foi terminada. E lamentamos profundamente que a Irmã Lúcia, após o seu regresso ao Porto, tendo a imagem tão perto nunca a tivesse enxergado.
Sobreviveu nas páginas do jornal “João Semana”, onde, providencialmente, a encontrámos em 2005, quando procurávamos notícias de um congresso do Coração de Jesus, e permanece viva na Igreja Matriz de Ovar, onde se encontrou, em 10 de abril último, com a Imagem Peregrina, e onde espera cada um de nós.
Marco Daniel Duarte, na sua dissertação de doutoramento “Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem", Coimbra, 2013, em quatro volumes, depois de reconhecer como “muito plausível” a nossa argumentação, estacionou assim perante a imagem do Carmelo de Coimbra: “Trata-se efetivamente, da primeira imagem escultórica do Imaculado Coração de Maria, pelo menos a que tradicionalmente se aceita como tal”.
Esperamos que, no caso da imagem de Ovar, a tradição se vergue definitivamente à força da razão.

Texto: Padre Manuel Pires Bastos,
Pároco de Ovar e Diretor do jornal "João Semana"


Notas:
[1] Na base da imagem consta: França, esculp Porto - 1946.
[2] “João Semana”, 25/07/1946.
[3] As revelações do Imaculado Coração de Maria estão datadas de 13 de junho e 13 de julho de 1917 (em Fátima), 10/12/1925 e 17/12/1927 (em Pontevedra) e 13/06/1927 em Tuy.
[4] Thedim terá sido convidado pelos responsáveis de Fátima e pelo Bispo de Leiria para tarefas urgentes relacionadas com a proximidade do Tricentenário da Padroeira de Portugal (1646-1946), tais como a necessidade de novas imagens para visitas no país e no estrangeiro. A Imagem Peregrina de José Thedim, com a colaboração da Irmã Lúcia, foi benzida em 13 de maio de 1947 pelo Arcebispo de Évora.
Chegámos a pôr a hipótese de Thedim ter iniciado a imagem, deixando-a incompleta, abrindo caminho não só a Albano França, que a completaria, como a outros artistas, que se encarregariam das imagens dos Colégios das Religiosas do Sagrado Coração de Maria. (A de Lisboa tem a serpente aos pés).
[5] “Fátima 50”, ano II, n.º 23.
[6] Um caminho sobre o olhar de Maria”, pág. 352.
[7] Uma outra imagem muito semelhante tinha já sido oferecida pelo escultor, um ano antes, à vidente, na sua entrada para o Carmelo, mas que não tinha sido aprovada pela Irmã Lúcia.


Este texto poderá ser enriquecido com novas informações de investigadores ou de leitores sobre pormenores ainda não conhecidos.

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