13/03/18

Faleceu a Irmã Tecla Roma (1932-2018)


Irmã Tecla Roma
(1932-2018)
Em Roma, onde fez a sua formação religio­sa, sendo a primeira portuguesa a professar das Irmãs Paulinas, faleceu no dia 9 de março a Irmã Tecla Roma, natural de Ovar, onde nasceu em 27 de fevereiro de 1932, filha de António da Silva Roma Capôto e de Maria de Oliveira Dias.
Antes de partir para Itália foi difusora da imprensa cristã, carisma do seu Instituto, traba­lhando na composição e distribuição de livros, e em Roma cursou enfermagem, que exerceu ao longo da vida.

Clique AQUI, ou no link "Ver mais", para ler a entrevista que a Irmã Tecla Roma concedeu ao jornalista Fernando Pinto, texto publicado no "João Semana" de 1 de agosto de 2012.


Irmã Tecla Roma – Uma ovarense em Itália

Foi a primeira religiosa portuguesa a fazer parte do Instituto Filhas de São Paulo (Irmãs Paulinas) e reside há muitos anos em Itália, em Albano, a poucos quilómetros da residência de verão do Papa. A Irmã Tecla Roma nasceu em Ovar em 27 de fevereiro de 1932, e é filha do maestro António da Silva Roma Capoto e de Maria de Oliveira Dias Campos. O “João Semana”, que lhe faz chegar as novidades da sua terra, revela-lhe parte do percurso desta simpática senhora cujo sorriso e sotaque conquistam o nosso coração.

Irmã Tecla Roma, em 2012,
junto à Igreja Matriz de Ovar
Jornal “João Semana” - Todos a conhecem por Irmã Tecla, mas em Ovar algumas pessoas ainda a tratam por Rosinha... Com que nome se identifica mais?
Irmã Tecla - O meu nome de ba­tismo é Rosa de Oliveira Dias Roma, mas prefiro que me tratem por Irmã Tecla. Tenho este nome porque a nossa Mestra, a fundadora das Fi­lhas de São Paulo, chamava-se Tecla Merlo. Tecla era também o nome de uma santa mártir do primeiro século, discípula do apóstolo São Paulo. Al­gumas Irmãs chamam-me Rosa, mas eu gosto mais de Tecla.

A Irmã tem irmãos de sangue?
Éramos quatro irmãos. O primei­ro, o Carlos, foi para o Céu ainda era pequenino, não o conhecemos. Depois tenho o Carlos, a terceira sou eu, e depois vem a minha irmã Alice, onde passo as férias quando venho a Ovar.

Em que ano partiu para Roma?
Entrei no convento em Itália em 1951, depois voltei a Portugal, e fiz os votos em Roma no dia 19 de mar­ço de 1956. Fui a primeira religiosa portuguesa a pertencer ao Instituto Filhas de São Paulo.

As Irmãs Paulinas são conheci­das por valorizarem os meios de co­municação social. Têm até livrarias espalhadas pelo Mundo, inclusive na Rússia...
É verdade! O nosso fundador ti­nha gosto em levar a palavra de Deus a todo o mundo utilizando as novas tecnologias. Hoje estamos também na Internet. As nossas publicações ajudaram a mudar muitas vidas.

Como é o dia a dia da Irmã Te­cla em Roma?
Sou enfermeira no hospital Re­gina Apostolorum, em Albano, perto de Castel Gandolfo, residência do Papa no verão. João Paulo II, quan­do me via, fazia perguntas sobre Portugal. Tenho uma foto com ele e outra com Bento XVI, que um dia, em plena rua, ao saber que eu era portuguesa, veio ter comigo, pegou nas minhas mãos, e disse que tinha gostado muito do nosso país.

O hospital onde é enfermeira é só para católicos?
Antes era uma clínica só para re­ligiosas, mas agora há de tudo... Em 15 de agosto de 1951, quando entre para o hospital, ainda era um edifício pequeno. Foi o Padre Tiago Alberio­ne que o fundou. Nos primeiros anos sonhava com os doentes, por eles es­tarem a sofrer. Às vezes não é fácil, mesmo para nós... Nessas alturas, socorremo-nos de uma oração que a Madre Tecla compôs para lermos aos enfermos. Neste momento traba­lho na sala de operações, mas, antes, trabalhei na assistência aos doentes, dava-lhes de comer, ajeitava-lhes os travesseiros. No hospital somos duas portuguesas, eu e uma irmã madei­rense. Mas temos uma japonesa, quatro filipinas e uma coreana. Mo­ramos todas no hospital, na primitiva casa que ficou para nós.

Ainda sente saudades da sua terra natal?
Eu vivo tranquila. Rezo e pen­so que os meus familiares e amigos estão bem. Em Itália julgam que sou espanhola, mas eu digo que o meu sangue é português... É sempre com alegria que recebo notícias de Ovar. Quando o “João Semana” chega ao refeitório, porque é lá que deixam o correio numa gaveta, as outras Irmãs perguntam-me porque é que eu estou tão radiante e eu digo-lhes que é por ter acabado de chegar um pedaço da minha terra. E o “João Semana” está sempre a progredir, o que é bom para todos nós, ovarenses. Agora até po­demos ler muitos artigos interessan­tes sobre Ovar na Internet, nos sítios da nossa Paróquia e do jornal “João Semana”.

Como é que passa os dias quan­do vem de férias a Ovar?
Quando chego ao nosso país as Irmãs estão à minha espera no aero­porto. Tinha uma Irmã que dizia que o céu de Portugal era diferente dos outros, que o azul do nosso céu era mais bonito. E o de Ovar é o mais lindo de todos os céus, porque foi aqui que eu nasci. Quanto ao meu dia a dia, é normal… Venho à Missa na Igreja Matriz de manhã, depois fico a rezar durante uma hora. Passo depois pelo cemitério para colocar umas flo­res na campa de meus pais, e chego a casa da minha irmã Alice por volta das 10h30 para tomar o pequeno­-almoço. Leio depois a liturgia do dia na varanda. Rezo o terço e estou por ali... Quero ajudar, mas não me deixam fazer nada… A primeira vez que vim a Portugal foi depois de 9 anos de estar definitivamente em Itá­lia. A minha mãe partira para o Céu e eu vim ao seu enterro. Não voltei mais cedo porque a minha superiora queria que eu estivesse lá no hospi­tal, onde fiz o curso de enfermagem.

O apelido Roma remete-nos para o seu pai, António da Silva Roma Capoto, que foi maestro da “Música Nova”. Como é que os seus pais reagiram quando disse que queria ser religiosa?
Os meus pais não queriam que eu fosse para um convento. Que­riam que arranjasse um namorado e me casasse. A minha mãe chorou no comboio, na primeira vez que ela e o meu pai me acompanharam ao Porto, à casa das Irmãs. Como eram estrangeiras, tinham medo de que elas me levassem para longe. Tinha 18 anos e esperei pelos 19 para dizer aos meus pais que queria ser freira.

Quando é que percebeu que de­via entregar a sua vida a Deus?
A minha vocação surgiu em pe­quenita. Sempre senti uma grande atração por tudo o que dizia respeito à religião. Escolhi as Filhas de São Paulo porque gostava de andar, de porta em porta, a vender livros, des­de a Bíblia a livros sobre Nossa Se­nhora. Hoje temos de ir ao encontro das pessoas porque elas precisam de uma palavra de conforto.

Ainda se lembra do tempo em que viveu em Ovar? Que memórias guarda de seu pai?
Fiz a 4.ª classe na Escola da Ola­ria e frequentei a catequese com a menina Alzira, que morava numa rua que vai dar às Luzes. Às vezes passo por colegas de escola e não os conhe­ço. Mas eles lembram-se de mim, da Rosinha, porque a minha fisionomia é quase igual... O meu pai era funilei­ro de profissão. Iam lá a casa rapazes para aprenderem a tocar vários ins­trumentos, antes de fazerem as audi­ções para ingressarem nas escolas de música. E eu gostava de os ouvir… O meu pai ensinou-me a tocar as pri­meiras notas no violino. Mas depois fui embora daqui e deixei de praticar. Era um homem muito bom...

Jornalista Fernando M. Oliveira Pinto (texto e fotos)
ENTREVISTA publicada no jornal "João Semana" (1 de agosto de 2012)

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