08/03/20

Terceiros recolhidos na Igreja Matriz de Ovar

A Quaresma é uma caminhada

A procissão das Cinzas saiu pela primeira vez à rua em 1663, três anos após a fundação da Ordem Terceira de Ovar. Há 357 anos que os vareiros dão o teste­munho da sua fé, percorrendo as principais artérias da cidade. Nos últimos anos, como constatou um dos Irmãos das fraternidades que se deslocaram a Ovar para figurarem no préstito religioso, são sobretudo os velhos que teimam em não dei­xar morrer aquela que é considerada uma das mais belas procissões do país.


Como o céu de 8 de março ameaçava chuva miudinha, a multissecular Procissão dos Ter­ceiros, organizada pela Ordem Franciscana Secular de Ovar, não saiu à rua. (Em 2010 e 2015 fez-se também dentro de portas).
"Estarmos aqui na Igreja é uma maneira de fazermos a nossa procissão interior", disse o pároco de Ovar, P.e Manuel Pires Bastos, que presidiu à celebração.


"Esta semana foi muito com­plicada para alguns de nós, por motivos de saúde, de falecimento de familiares. Não foi fácil, mas com a graça do Senhor e de São Francisco conseguimos ter tudo pronto para que hoje a procissão dos Terceiros se pudesse reali­zar. Como o Frei Bruno diz, só o Senhor manda no tempo, por isso, estamos à mercê do Senhor, e não da nossa própria vontade", referiu Vera Marques Cruz [na foto], Mi­nistra da Ordem Franciscana Se­cular de Ovar, no final da celebração, aproveitando para agradecer a todos os que ajudaram na montagem dos andores, aos Ir­mãos Terceiros, à Irmandade do Senhor dos Passos (que este ano está formada), às zeladoras dos andores e às fraternidades que vie­ram de fora (Gondomar, Penafiel, Vila Real, Vila do Conde, Leça da Palmeira e Braga).


A Ministra da OFS deixou ainda um obrigado "ao presidente da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, Pedro Braga da Cruz, ao vice-presidente da CMO, Domingos Silva, aos acólitos, aos escuteiros, ao Frei Mário, que veio de Penafiel pela primeira vez a Ovar, ao Frei Bru­no, nosso assistente, que mais uma vez esteve cá, e ao Sr. Padre Bastos, porque se preocupou con­nosco durante a semana e por es­tar sempre disponível para nós.
Após a leitura própria daque­le domingo – Segunda Carta do apóstolo Paulo a Timóteo –, Bru­no Peixoto [na foto], começou por cumprimentar os Irmãos e Irmãs das fraternidades, com o habitual "Paz e Bem", dizendo que "o tem­po da Quaresma é um tempo que nos interpela à cons­ciência, à avalia­ção, ao exame pes­soal, a olharmos a nós próprios", e que a Quaresma é uma caminhada: "A Liturgia, neste 2.º Domingo da Quaresma, mos­tra-nos uma caminhada que Jesus faz, com os seus discípulos Pedro, Tiago e João, ao cimo do Monte, e Jesus Cristo caminha com eles para depois descer, e que depois terminará na caminhada do Cal­vário".


O frade franciscano, no seu belíssimo sermão, explicou o sentido das palavras "Penitência", "Abstinência" e "Jejum", dizendo que são o convite à conversão, à mudança de vida: "A maior parte dos Santos que estão aqui passa­ram pelo processo de Penitência, principalmente São Francisco de Assis, que vivia como um boémio e, a certa altura, deixou as coisas do mundo, voltando­-se para as coisas de Deus".
A maioria das pessoas procura viver no conforto, no comodismo, "e às vezes critica de barriga cheia", frisou Frei Bruno.


Os andores da Ordem Terceira e de Nossa Senhora da Conceição

"Creio que ficamos con­tentes por saber que temos estas imagens ao dispor dos nossos olhos, muito espe­cialmente do nosso cora­ção e da nossa fé. Muitas pessoas poderão achar que já são coisas ultrapassadas, mas hoje em dia há tantas coisas que se querem e que têm pouco a ver com os nossos gos­tos. Mas nós somos cristãos, cató­licos, e não nos esqueçamos que este ano, em que refletimos sobre o dia do nosso batismo, não po­demos fugir aos nossos compro­missos. É daí que nasce a nossa vocação para levarmos uma vida seguindo os valores de Cristo, como estes Santos fizeram", disse o Pároco, voltando os rostos dos fiéis para os 14 andores que embe­lezavam a Matriz: Nossa Senhora da Conceição, S. Lúcio e San­ta Buona (“Os Bem Casados”), Santa Rosa de Viterbo, S. Fran­cisco prostrado nas silvas, Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo, S. Roque, S. Luís Rei de França, Santa Isabel da Hungria, Santa Isabel de Portugal, Santo António de Lisboa, Santa Clara de Assis, S. Francisco abraçado a Cristo, e o Andor da Ordem Terceira.


"Os meus cumprimentos a to­dos, às autoridades [na foto] e às pessoas que estiveram a represen­tar alguém que não pôde estar", disse o P.e Bastos, voltando a lembrar que a presença das crian­ças, jovens e seus pais nas procis­sões é muito importante para que estas festividades, que atraem há séculos milhares de fiéis a terras vareiras, possam ter o brilho e a dignidade de outrora. Como fri­sou Frei Bruno, no seu sermão, "ir pelas ruas da cidade é ir em ca­minhada, uns atrás dos outros, em espírito de oração, caminhando", porque "a nossa vida, toda ela, é uma peregrinação".

TEXTO e FOTOS: Jornalista Fernando Pinto

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