31/01/18

Padre Maia – Memória viva em Angola

Padre Maia (1905-1981)
Entre as figuras já de­saparecidas que fizeram parte dos ce­nários da mi­nha juventu­de, encontro a do Padre António da Silva Maia, missioná­rio em Angola, o qual, quando de visita à sua vila de Ovar, percorria as terras vizinhas, envergando a ha­bitual batina sacerdotal e montando uma bicicleta carregada de livros, que ele publicara para instrução religiosa do povo.
Viria a saber, mais tarde, que ele criara uma escola na Gabela, e que estudara as línguas nativas com a ajuda de colaboradores da sua missão, particularmente do seu catequista Domingos, com quem ocupou imensas horas para conseguir pas­sar à escrita os sons, as sílabas e as palavras autóctones que deram origem a gramáticas e a dicionários bilingues (Português – Kimbundu – Kikongo) e de livros de devoção e estudo.

Regresso de África
Regressado a Ovar em 1961, vítima da visão colonialista das au­toridades portuguesas, que não lhe perdoaram a defesa dos direitos dos nativos, o Padre Maia remeteu-se a uma vida discreta, entre a sua casa do Salgueiral e alguma exposição pública pelas terras das redondezas, distribuindo alguns dos livros que editara em Cucujães.
Durante os meus primeiros anos em Ovar, responsabilizou-se pela presidência na missa da catequese. Mas continuou reservado quanto à sua ação missionária, o que me causava admiração, até porque, desde criança, acompanhei de perto os missionários de Cucujães a que ele pertencia, a alguns dos quais me ligavam laços de sangue.

Casa onde nasceu o P.e Maia, no Salgueiral, Ovar

Busto do P.e Maia, na Gabela,
com a Igreja ao fundo
Quando da ho­menagem que lhe foi prestada em Ovar em 1992 – Medalha Municipal de Prata em 16 de maio e mis­sa solene na Matriz no dia seguinte –, marcaram presença os Bispos D. Zacarias, de Dumbe, Angola, diocese das paróquias do P.e Maia, e D. Francisco Nunes Tei­xeira, que foi Bispo de Quelimane, em Moçambique, os quais testemu­nharam sobre a ação missionária do Padre Maia, ação tão excecional que, dezenas de anos após a saída dos portugueses, os seus antigos paroquianos se afirmam, com or­gulho, como os “cristãos do Padre Maia”, tal o grau de perseverança e de fidelidade ao seu ensino.
De facto, o missionário de Ovar, “homem que em Angola associou a evangelização à promoção huma­na”, como escreveu um dos seus sucessores na paróquia de Gabela, vai ter o seu nome associado a uma nova paróquia – Assango –, a 40 quilómetros da Gabela, da qual se desmembrou, mas à qual sempre esteve ligada estrutural e espiritualmente. E de tal modo que o padre Maia, que já conta com um busto que lhe levantaram na Gabela em 22 de setembro de 2007 – por iniciativa do Pároco de então, P.e Augusto Farias, com a colaboração da Paróquia de Ovar –, vai ficar liga­do à comuna de Assango através do Complexo Escolar Padre António da Silva Maia, a inaugurar ali no dia 15 de fevereiro, às 11 horas locais, por iniciativa dos Missionários da Boa Nova, fieis continuadores do património moral, religioso e cul­tural ali deixado pelo seu saudoso predecessor.

Texto: Manuel Pires Bastos - Jornal “João Semana” (1 de fevereiro de 2018)


Veja o monumento e a Igreja construída pelo P.e Maia
(A partir dos 3 minutos e 25 segundos)

Clique no link, a azul, para ler o texto

Padre António da Silva Maia - Um grande em Angola

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